Foto: Jesse Willems

Passagem obrigatória para quem vem a Belo Horizonte ou passa pela capital para seguir para outros destinos, o Circuito Cultural da Praça da Liberdade, inaugurado em 2010, guarda sempre uma surpresa, uma novidade e uma interessante mostra para os visitantes. A exposição da vez é “O corpo é a casa”, do austríaco Erwin Wurm, em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB-BH), até o dia 18 de setembro. Nela, o artista usa formas associadas a objetos cotidianos para propor uma crítica ao atual padrão de consumo da sociedade.
“É uma obra conceitual e interativa, que aborda a relação da sociedade com o consumo, a questão do peso, do consumismo. Mostra que a gente não precisa do tanto que a gente consome”, observa Marcelo Nonnenmacher, gerente-geral do CCBB-BH. Para ilustrar essa realidade, Erwin Wurm usa, por exemplo, uma casa coberta por uma espessa camada que lembra gordura. A instalação recebeu o nome de “Fat house” (Casa gorda) e surpreende pela dimensão: pesa cerca de 2 toneladas.

Obras propõem reflexão sobre excesso e falta. Foto: divulgação

Apesar de tratar sempre da questão do peso, o artista não critica somente o excesso, mas também a “falta”, por meio de peças com dimensões mínimas, como o vaso sanitário fininho, uma escultura com pepinos, um manequim sem cabeça. “Ele (Erwin Wurm) faz um contraponto à questão da dieta, à filosofia da dieta que existe hoje. Todo mundo pensa em dieta o tempo todo”, diz. Na exposição, a reflexão em torno do consumo aparece em diferentes peças que fazem parte da vida do ser humano, como casa, carro, vasos, armários, cadeiras… Importante observar, segundo Marcelo, que a crítica feita pelo artista propõe a reflexão, mas de forma sempre bem-humorada.

Além das 40 peças montadas, a exposição, que tem curadoria de Marcello Dantas, permite a chamada “obras de um minuto”, que é um momento de interação entre público e arte, em que os visitantes passam a fazer parte do acervo e podem tirar fotos com as peças, se desejarem. Também integram “O corpo é a casa” as intervenções, como a projeção que é feita na fachada do CCBB-BH e que tem exatamente o nome “Fachada”. “É muito interessante, as pessoas param em frente e ficam tirando fotos”.

Acervo remete a objetos que estão no cotidiano das pessoas. Foto: divulgação

Algumas das obras
“Fat house” (Casa Gorda), com cerca de 2 toneladas.

Série “The artist who swallowed the word” (O artista que engoliu o mundo), com seleção de trabalhos que discute a presença do artista na própria obra

“One-minute sculptures” (Esculturas de um minuto), em que os visitantes seguem as instruções do artista e tornam-se, por 1 minuto, a própria obra

“Dentro de casa e comida”, outros núcleos que fazem parte da exposição e também deslocam o espectador ao confrontá-lo com elementos triviais distorcidos

Serviço
Exposição “O corpo é a casa” – Erwin Wurm
Quando: 19 de julho a 18 de setembro de 2017
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil de BH – Praça da Liberdade, 450, Funcionários
Horário: das 9h às 21h, de quarta-feira a segunda-feira
Telefone: (31) 3431-9400
Site: bb.com.br/cultura
Entrada franca

Inédito no Brasil

Essa é a primeira vez que o artista, nascido em 1954, tem obras expostas no Brasil. Uma marca de Erwin Wurm é a de sempre abordar temas ligados à contemporaneidade, com enfoque crítico e reflexivo. A exposição “O corpo é a casa” já passou por São Paulo e Brasília e, depois de Belo Horizonte, se encerra no Rio de Janeiro (10 de outubro de 2017 a 8 de janeiro de 2018). Em BH, a exposição teve início em 19 de julho e, segundo Marcelo, surpreendeu pela movimentação. “Como era mês de férias, pensamos que poderia ficar mais vazia, mas foi muito visitada durante a semana. No primeiro dia, que era uma quarta-feira, teve 2 mil visitantes”. O gerente-geral observa que o público que comparece ao CCBB muitas vezes vai sem saber o que tem no prédio e acaba se surpreendendo com o que encontra. Mas, no caso dessa exposição, ele acredita que as pessoas estão informadas, tanto pela grande mídia quanto pelas redes sociais.

Recordistas de público

O CCBB-BH, que atua em conjunto com os outros três CCBB do país (São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília), tem em média quatro grandes exposições por ano, as quais passam pelos quatro espaços. Neste ano, além de “O corpo é a casa”, teve “Entre nós”, com acervo de obras do Masp (SP), com 178 mil visitantes, e a surpreendente “Consciência”, de Patrícia Piccinini, que bateu o recorde de visitação do CCBB-BH até o momento, sendo vista por 312 mil pessoas. Ele atribui o sucesso da exposição ao inusitado, já que as obras contemporâneas, como a de Patrícia, não são de conhecimento mais amplo e consagrado, como as clássicas que compunham “Entre nós”. “O público desses dois tipos de exposição é um pouco diferente. Quem vai ver as obras do Masp é quem já conhece, o contemporâneo é mais pop, atrai o público que não tem hábito de frequentar exposições, é mais democrático. Tem coisas que chamam a atenção”, explica. Isso já contribui para a formação de um novo público apreciador de arte, além de haver também as visitas mediadas, destinadas a escolas e outras instituições que desejarem, desde que programem antes com o CCBB. Tudo gratuitamente.

Visitas agendadas

Para evitar filas, as pessoas podem garantir antes a entrada. Por exemplo, grupos grandes que vêm de outros lugares podem baixar o aplicativo do CCBB e agendar os ingressos para todos. Então, quando chegarem ao espaço, no horário determinado no agendamento, entram direto, sem filas. Segundo Marcelo, o público que frequenta o CCBB-BH é composto tanto por visitantes de BH quanto do interior de Minas e por pessoas de outros estados, até pelo fato de estar no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, composto por 14 prédios históricos. E, no CCBB-BH, quem for conferir “O corpo é a casa” também pode ver “Pirajá”, de Renato Morcatti, que é uma exposição menor, em cartaz até 14 de agosto nas três salas do térreo.

Vem aí

A próxima grande exposição do CCBB-BH já está definida. Será a Ex-África, que ocupará o prédio duas semanas após o encerramento de “O corpo é a casa”, ou seja, no início de outubro. É uma coletânea com pinturas, fotografias, esculturas e outras formas de arte relacionadas ao continente africano.